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Tubarão (Steven Spielberg, 1975)


GUILHERME W. MACHADO

A sugestão é uma ferramenta característica do cinema de terror, principalmente antes de ser possível fazer qualquer coisa com CGI (efeitos especiais gerados por computadores). Ela induz uma imagem mental no espectador que se estabelece por associações cuidadosamente construídas através do que nos é visível em cena; uma imagem geralmente mais assustadora do que a sua verdadeira face, uma vez que a visualizamos na sua essência mais profundamente genérica, sem as falhas do real. Tubarão [1975], filme no qual Steven Spielberg mais mostra sua forte influência hitchcockiana, é um dos exemplos cinematográficos mais proeminentes de utilização da sugestão, do fora de quadro, numa construção narrativa.

O enredo do filme passa-se numa pequena ilha no litoral americano. A população de tal local é mínima e seus trabalhos são, em sua maioria, voltados para o turismo no verão por conta das praias. Em pleno início da alta temporada, pessoas começam a morrer na praia devido a ataques de um tubarão. Em princípio, a cidade faz um esforço conjunto, liderado pelo prefeito, para tentar negar a situação e manter as praias em funcionamento, até que se torna inevitável e eles contratam um estranho pescador, que terá ajuda do chefe da polícia local e de um estudioso de tubarões, para matar o animal.

Spielberg, naquela época um diretor bem iniciante, demonstrou uma consciência incrível de seu ofício na construção de seus quadros. Tubarão, ao invés de ser um filme de exibicionismos – armadilha comum para alguns diretores mais egocêntricos –, é uma obra contada através de imagens, inteligentemente articuladas e editadas. Não são necessárias muitas explicações ou cenas de diálogos expositivos que cortariam o ritmo (um dos elementos mais importantes do suspense) da obra para que compreendêssemos tanto a lógica daquela pequena sociedade quanto a dos próprios personagens, sobre os quais somos dados apenas um mínimo de informações. Os dispositivos cinematográficos tão bem empregados por Spielberg nos fazem perceber a história de uma forma incrivelmente natural.

Por mais competentes que tenham sido as composições cenográficas de Spielberg e a forma como ele usou a ótima montagem – que rendeu o Oscar nesta categoria para Verna Fields – para desenvolver sua história, o trunfo de Tubarão, como dito anteriormente, está no fora de quadro. A maneira como a imaginação do espectador foi utilizada pelo diretor, durante mais da metade do filme, para criar o suspense é o que marca esse filme na história dessa arte. Curiosamente, essa escolha só foi feita pelo diretor uma vez que não foi possível, com as tecnologias da época, fazer um tubarão-robô suficientemente convincente para que esse aparecesse muito em cena. Muitas vezes o acaso, geralmente através de problemas ou dificuldades, influi de forma determinante na criação de grandes obras.


Embalado pela clássica trilha de John Williams – na qual também se percebe a influência hitchcockiana, lembrando as lendárias trilhas de Bernard Herrmann – Tubarão é um perfeito exemplar de que o suspense e o terror são gêneros simples, basta conhecer seus mecanismos para extrair o melhor deles. Em meio a uma péssima fase passada pelos dois gêneros nos últimos anos, com filmes que apostam nos métodos errados para alcançar seus resultados pífios e passageiros, esse filme de Spielberg, que completa 40 anos neste ano de 2015, se faz cada vez mais relevante.




NOTA (4/5)

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