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Mostrando postagens com o rótulo Crítica

Melhores Filmes de 2018

G.W. MACHADO Então, resolvi tirar um pouco a poeira desse espaço para voltar com a tradicional lista de melhores do ano – um exercício que, apesar de tudo, ainda me interessa bastante fazer –, contando, como sempre, os filmes que estrearam no Brasil em 2018 (mas que não necessariamente são filmes de 2018). A diferença esse ano é que decidi considerar como elegíveis também os filmes originais das plataformas de streaming, uma realidade crescente na indústria e que não pode mais ser negada. 2018 foi um ano curioso, com muitos filmes que espelharam a turbulência política (não apenas brasileira, mas mundial), e também com nuances bizarras. Foi um ano em que alguns cineastas consagrados – ou pelo menos dignos de interesse – lançaram filmes bem abaixo de suas médias (Polanski, Ramsey, Del Toro, Linklater), e cineastas dos quais se esperava pouco ou nada lançaram bons ou ótimos filmes (Chazelle, a dupla Daley/Goldstein, Collet-Serra, Johannes Roberts, etc), mesmo que eu não tenha cons...

The Square (Ruben Östlund, 2017)

G.W. MACHADO Se Adorno estava certo em afirmar que o crítico da cultura não percebe ser ele mesmo produto daquilo que critica, não é – ao contrário do que muitos postularam à época – nada surpreendente que The Square tenha sido o grande vencedor do festival de Cannes em 2017. Um filme que critica o eurocentrismo e os limites da arte e comunicação contemporâneos premiado num festival eurocentrico, elitista e cada vez mais tendencioso a um mesmo grupo de autores que de contemporâneos só tem o tempo, mas cuja mise-en-scène ainda é muito apegada ao classicismo. São o caso de nomes como Michael Haneke, Pawel Pawlikowski, e, claro, Ruben Östlund.

Festim Diabólico (Alfred Hitchcock, 1948)

G.W. MACHADO Não deve ter precisado de muito para convencer Hitchcock a fazer Festim Diabólico . Essencialmente, é um filme sobre assassinato; mais do que isso, sobre a própria filosofia do assassinato. Como se não bastasse, ainda vinha acompanhado com o atrativo do desafio que era filmar num espaço bastante limitado, em tempo real (aspecto fundamental que já vinha com a peça) e manter a dinâmica necessária para um filme de suspense. Parece claro até hoje que era um projeto condenado: um "teatro filmado", pretensamente intelectualizado, marcado pelo ego de um diretor que na época estava mais preocupado em transformá-lo num projeto de vaidade. Tudo isso serve para nos mostrar o quão pouco valem nossos exercícios de antecipação, e que o cinema é realmente uma arte de combinações improváveis.

Trama Fantasma (Paul Thomas Anderson, 2017)

GUILHERME W. MACHADO Por mais que ainda seja um filme sobre obsessões, Trama Fantasma quebra com o ciclo recente no cinema de PTA de filmes sobre a história americana, como eram os casos de Sangue Negro (2007), O Mestre (2012) e Vício Inerente (2014). E embora o próprio Anderson tenha traçado em entrevistas o paralelo de seu novo filme com Rebecca (1940), não consigo evitar enxergar um pouco mais de Vertigo (1958) nele: o homem que obsessivamente tenta reconfigurar a personalidade da mulher através do figurino.

Lady Bird (Greta Gerwig, 2017)

GUILHERME W. MACHADO Há uma escolha curiosa em Lady Bird que parece ser a de evitar a qualquer custo momentos de maior intensidade. Tudo bem que se há uma característica evidente desse cinema indie moderninho é a priorização da leveza, o trato suave e delicado mesmo quando se abordam assuntos pesados. O que intriga mesmo é entender o motivo que levou Greta Gerwig a criar esses momentos no roteiro apenas para negá-los depois na direção e montagem.

A Forma da Água (Guillermo Del Toro, 2017)

GUILHERME W. MACHADO Depois de uma sucessão de filmes que pareciam muito mais preocupados em explorar tonalidades visuais, é estranho que Del Toro entregue um filme tão menos intenso e inventivo naquilo que lhe é mais caro como cineasta: a forma. Ainda mais por esse A Forma da Água ter vindo logo depois daquele que provavelmente é seu filme mais bem resolvido no aspecto artesanal e estético de seu trabalho (ainda que altamente problemático em quase todos outros): A Colina Escarlate (2015).

The Post (Steven Spielberg, 2017)

GUILHERME W. MACHADO Dentre tantas, uma das habilidades de Spielberg como contador de histórias deve ser reconhecida, poucos cineastas assumem projetos em princípio tão desinteressantes e fazem deles bons filmes. Não com a frequência que ele tem feito, ainda mais recentemente. Sério, alguém queria mais um filme sobre a liberdade da imprensa? Ou sobre o embate dessa com o governo Nixon? Não, mas Spielberg fez, e fez bem. Que venham Indiana Jones 5 e o remake de West Side Story!

Roda Gigante (Woody Allen, 2017)

GUILHERME W. MACHADO O cinema como palco sempre foi uma questão tentadora na carreira de Woody Allen. Daí partiu a confusão recorrente de que o cineasta fazia “teatros filmados” – uma baboseira que, não fosse tão absurda, nem valeria o comentário –, numa falha generalizada de perceber que seus filmes apenas partem de bases teatrais (os diálogos como alicerce que movimenta a narrativa) para chegar ao cinema (decupagem, close-ups, temporalidade fragmentada, etc), linguagem na qual Allen é traiçoeiramente bem versado.

O Som ao Redor (Kleber Mendonça Filho, 2012)

GUILHERME W. MACHADO Como o filme de grande cidade que é, O Som ao Redor  acaba por abordar uma multiplicidade de temas através de seu mosaico de personagens. Longe de difuso, entretanto, Kleber Mendonça filho consegue manter sua unidade temática da mesma forma que vem fazendo em sua jovem carreira: explorando à exaustão um punhado específico de assuntos que se repetem sistematicamente na estrutura de suas obras. Como muitos grandes cineastas – e digo isso sem emancipá-lo a essa posição tendo apenas dois longas metragens no currículo – Kleber é obcecado.

Mãe! (Darren Aronofsky, 2017)

GUILHERME W. MACHADO Então... Demorei, confesso, para escrever esse texto. Não porque precisava de tempo para pensar, afinal o filme é tão plano quanto as palavras de seu diretor, revelando prontamente suas intenções na tentativa de passa-las por algo mais complexo. Demorei precisamente porque a busca por importância na qual incorrem diretores como Aronofsky é, em geral, apelativa a um público sempre à procura de um gênio; pensei, portanto, se era uma polêmica que valia a pena ser comprada (até porque incitar essas discórdias insossas faz parte da estratégia de venda de Mãe! , e isso eu não queria alimentar de jeito nenhum).

Dunkirk (Christopher Nolan, 2017)

GUILHERME W. MACHADO Ao dar uma entrevista sobre a versão estendida do relançamento de seu Aliens - O Resgate  (1986), James Cameron a descreveu, muito habilmente, como "alguns quilômetros a mais numa estrada ruim", referindo-se ao ritmo intenso e sufocante de suspense do filme. Não parece ser muito diferente do objetivo que move Christopher Nolan na realização do seu novo Dunkirk : o de fazer um filme de guerra pelo prazer estético e sensorial de fazer, sem construção de personagens, sem nenhuma mensagem plenamente formada, quase sem um enredo propriamente dito. Apenas quase 2h de uma estrada ruim, ou de um voo turbulento.

A Hora do Lobo (Ingmar Bergman, 1968)

GUILHERME W. MACHADO Bergman mergulha como nunca em sua carreira no expressionismo para fazer A Hora do Lobo . Os fantasmas imaginados pelo personagem de Max Von Sydow são expressões dele mesmo, reflexos distorcidos de uma alma que sofre. Johan – o homem em questão – é assombrado por traumas do seu passado, eventos que podem variar da sua infância a relacionamentos amorosos mal-resolvidos. E é nesse tipo de terreno psicológico, trabalhando com mentes perturbadas, que Bergman tira alguns de seus melhores trabalhos.

Sangue Negro (Paul Thomas Anderson, 2007)

GUILHERME W. MACHADO Daniel Plainview é o sonho americano. Não a versão sonhadora dele; a versão real. O “self-made man” que vê as pessoas ao seu redor como obstáculos na sua busca por realização pessoal. Ele é o homem que, saindo do nada, trabalhou duro e conquistou a fortuna e o respeito que, na “terra das oportunidades”, é prometida àqueles que arregaçam as mangas e tomam conta do seu destino. O problema – e Sangue Negro ilustra isso magistralmente – é que, no processo, ele acaba tomando também conta do destino de outros, e a verdade é que o sonho americano do homem que simplesmente baixa a cabeça e se esmera no seu ofício é uma farsa.

Corra! (Jordan Peele, 2017)

GUILHERME W. MACHADO Se o dito comum anuncia que é tênue a linha que separa tragédia e comédia, o que surpreende não são filmes como Corra! e sim o fato de não haver muitos outros [competentes] exemplos de terror com pegada cômica. A estreia na direção de Jordan Peele – pronto para ser precocemente anunciado como novo gênio, uma síndrome bem recorrente ultimamente –, se por um lado impressiona pela solidez, também não deixa de revelar uma carência no público atual (e nesse mote também pode ser incluída boa parte da crítica), que se agarra a qualquer sinal de esperança num gênero banalizado. Todo ano um filme é anunciado “o melhor terror dos últimos anos”, em 2015 foi It Follows  (2014), em 2016 foi A Bruxa  (2015), e em 2017 é Corra! .

Resident Evil - Retribuição (Paul W.S Anderson, 2012)

GUILHERME W. MACHADO Não sei por que demorei tanto pra escrever sobre esse filme, muito menos por que demorei pra assistir o último ( Resident Evil: Final Chapter [2016]). Esse texto, mesmo que foque nesse que é ápice da saga Resident Evil , acaba servindo como análise conjunta de todos os últimos três capítulos dela dirigidos por Paul W.S Anderson: Afterlife (2010), Retribution (2012) e Final Chapter (2016). Não é o caso, todavia, do primeiro filme, Resident Evil (2002), que, embora também do diretor, é um produto completamente diferente dos rumos que a franquia veio a tomar.

Fragmentado (M. Night Shyamalan, 2016)

GUILHERME W. MACHADO Bizarro que a volta de Shyamalan ao sucesso ( Fragmentado custou apenas 9 milhões e já passou dos 250 nas bilheterias) seja com um filme que: 1) é mais uma extensão – provavelmente a mais radical – de seu tema preferido, o trauma; 2) subverte tanto daquilo que se espera na sua condução dentro do gênero de suspense. Sei que ainda vou me arrepender de escrever sobre esse antes de uma revisão, pois foi realmente uma experiência bem diferente do que eu esperava antes de ir para o cinema, mas no momento é inevitável.

Hiroshima meu Amor (Alain Resnais, 1959)

GUILHERME W. MACHADO Não deixa de ser incrível como Resnais conseguiu manter tamanha coerência temática em sua longa carreira sem, na maioria das vezes, ter escrito seus próprios roteiros. Já em Hiroshima meu Amor , seu primeiro e mais conhecido longa-metragem, é possível enxergar distintamente as marcas de seu cinema. Seja nos aspectos formais, como a edição que movimenta a narrativa não-linear e a movimentação de câmera  –  que remete muito mais a um estilo moderno de fluxo que à mise-en-scène predominante na virada dos anos 50 pros 60  –  seja nas suas principais obsessões temáticas: o tempo e a memória. É um engano, entretanto, crer que as fundações de seu cinema partem daqui, uma vez que todos esses elementos já haviam sido ensaiados  com maestria  nos seus curtas, dentre os quais destaca-se o brilhante Noite e Neblina (1955).

Silêncio (Martin Scorsese, 2016)

GUILHERME W. MACHADO A última vez que me lembro de um homem desbravando a natureza de um país estrangeiro, pretensamente em busca de um ex-líder que, nas condições extremas da cultura em que se encontra, rebelou-se contra o sistema que o enviou aquele lugar, foi no Apocalypse Now  [1979] de Francis Ford Coppola. No caso digo pretensamente porque, tanto no filme de Coppola quanto no de Scorsese, as buscas em que engrenam seus protagonistas tem muito mais a ver com questões existenciais do que propriamente tarefais. Se o filme de 1979 era uma jornada rumo a escuridão do ser humano, a nova obra-prima de Scorsese é rumo à essência da fé, e todas lutas e contradições que a envolvem.

No Silêncio da Noite (Nicholas Ray, 1950)

GUILHERME W. MACHADO Difícil é encontrar cinema mais verdadeiro do que o de Nicholas Ray. Mesmo em seu momento mais visualmente maneirista (mais pela natureza do gênero do que por qualquer outro motivo), Johnny Guitar [1954] é uma obra que transborda emoção, raiva e paixão dos seus personagens, num turbilhão alucinante que mantém a intensidade do início ao fim. Um filme glorioso, nem preciso dizer. No Silêncio da Noite , frequentemente aclamado como sua obra prima, e não sem motivos, figura entre os exemplares cinematográficos mais amargos da solidão humana numa grande cidade.

Moonlight (Barry Jenkins, 2016)

GUILHERME W. MACHADO Corpos sufocados pelo ambiente e personalidades compostas por ele. Moonlight , filme papa prêmios do ciclo da crítica, mas mero espectador na corrida do Oscar (embora deva sair com dois prêmios, não chega a brigar pelos principais: filme/diretor), é um filme que consegue estabelecer uma abordagem sutil, ainda que incorra seus excessos cênicos – fotográficos, principalmente – na tentativa de adotar um tom operístico, que mais interfere com o bom fluxo de imagens do que agrega a ele.