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Dois Dias, Uma Noite (Jean-Pierre Dardenne, Luc Dardenne, 2014)


GUILHERME W. MACHADO

Os irmãos Dardenne adentram ainda mais a estrutura narrativa do neo-realismo italiano, como é conhecido, mantendo ainda semelhanças com sua premiada obra anterior: O Garoto da Bicicleta (2011).  Ambos filmes contam histórias de pessoas simples, classe-média baixa e habitantes de pequenas cidades, em situações realistas (passadas num espaço relativamente curto de tempo) e que suscitam questões morais rotineiras – mas não por isso menos profundas. O formato estético e narrativo também é semelhante, ainda que, a meu ver, o filme anterior demonstrasse um trabalho mais maduro nesse aspecto, enquanto essa obra levanta questionamentos mais interessantes, possuindo um roteiro mais envolvente e melhor estruturado.

Dois Dias, Uma Noite chama atenção desde cedo pela forma como é filmado e montado. Os Dardenne filmam de forma a dar o máximo de continuidade possível, com longos planos que buscam acentuar o naturalismo das cenas. Essa árdua tarefa é bem executada; ela torna, entretanto, a obra de difícil acesso, devido ao ritmo narrativo lento decorrente de tais escolhas. A montagem também contribui para essa proposta: todos cortes são secos e objetivos, não havendo efeitos de transição (como fusões).

O enredo gira em torno de Sandra (Marion Cotillard), personagem presente em quase todos frames do filme, uma mulher que logo após se recuperar – de forma evidentemente incompleta – de uma crise de depressão, descobre que será demitida para que seus colegas de trabalho recebam um bônus. Ela tem, então, um final de semana para conversar individualmente com cada um e pedi-los para que abram mão de seus bônus, fazendo com que ela mantenha seu emprego. A decisão será tomada através de uma votação entre seus 16 colegas na segunda-feira.
O dilema moral é magnificamente bem explorado pelos irmãos Dardenne; um verdadeiro trunfo. A situação é apresentada de forma tão minimalista e real que é fácil para o espectador se colocar nos dois lados da questão e enxergar seus pontos de vista, ainda que esse evidentemente torça pelo sucesso da protagonista. A serenidade com a qual tudo é abordado é impressionante, isso sem causar qualquer distanciamento do espectador com o objetivo de Sandra, pelo contrário, há um envolvimento crescente com a história conforme ela avança. De quebra, os Dardenne ainda apresentam um retrato das classes europeias afetadas pela crise, mostrando-as da forma mais humana e real possível e fazendo-nos compreender sua forma de agir.

Claro que tudo isso não poderia ter sido passado da forma que foi sem a grandiosa atuação de Cotillard. A atriz está aqui num de seus melhores momentos, dando um show numa personagem difícil e muito sutil. Suas variações de humor, constantes ao longo do filme, são interpretadas de forma extremamente natural e comovente, sem nunca recorrer à exageros. A atriz consegue se destacar (e muito) mesmo com a forma de filmar dos Dardenne: praticamente sem closes ou takes que a ponham em maior evidência.

Enfim, Dois Dias, Uma Noite é um filme muito humano, acima de tudo. Sua história é incrivelmente bem construída, sempre muito real (e por isso, às vezes dura), sendo gratificante acompanhar a curta, porém intensa, trajetória da protagonista e sua evidente evolução. Uma obra de cineastas seguros do que têm a oferecer.

NOTA (3.5/5.0)

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