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Animais Noturnos (Tom Ford, 2016)

GUILHERME W. MACHADO


O novo filme de Tom Ford – confesso que ainda não vi o seu primeiro, Direito de Amar [2009] – de cara traz, já nos créditos mesmo, todos os cacoetes que se esperaria de um filme dirigido por um estilista ou artista plástico (no caso, ele é a primeira opção). Tudo nessa primeira cena (trilha sonora, fotografia, direção de arte, etc) clama por uma noção de autoria, por uma atmosfera onírica, na vã tentativa de pegar emprestado um pouco da magia de um David Lynch, mas mais pelo prazer que essa proporciona ao ego do autor do que por alguma razão de ser. Porque, realmente, Animais Noturnos não é muito mais do que exibição e mímica, com muito na superfície e nada no âmago.

O filme é dividido em duas histórias, uma dentro da outra. Na primeira vemos a artista da alta-sociedade Susan (Amy Adams) em crise com a sua vida fútil e com seu casamento, ela recebe, então, um manuscrito do seu ex-marido – com quem não fala há 20 anos – que conta a história de uma fictícia viagem de férias em família que é interrompida de forma brutal e violenta. A metalinguagem aqui é um recurso pobre para exprimir a violência sentida pelo autor-personagem (Edward) no seu turbulento divórcio com Susan, uma vez que a representação dela no enredo fictício não condiz com a imagem que o filme busca pintar dela. Na realidade, funciona quase como um “torture porn” infantil, uma vingança medíocre do marido com a esposa que o feriu irremediavelmente há 20 anos.
Ford até leva algum jeito com imagens, e seu diretor de fotografia Seamus McGarvey, mesmo se excedendo nos seus tons lustrosos, tem algum talento, mas tudo dali parece que já vem encomendado de algum lugar anterior, alternando entre uma atmosfera sub-Lynch, na ambientação pretensamente onírica com toneladas de objetos e decoração em vermelho vívido, com outra sub-Coen brothers, na tentativa de estabelecer os desertos sulistas como uma terra de ninguém, sem perceber que para os irmãos isso muito mais era uma representação metafórica do que uma exposição do “mundo real”. Todo esse acúmulo de clichês, que se estende também ao roteiro e diálogos, até poderia valer alguma coisa numa comédia de costumes – que, bem no início, parece um caminho viável ao filme –, mas não num produto que se leva tão a sério.

Não é nem que Animais Noturnos não tenha nada a dizer (tenta, inclusive, dizer muito), mas dificilmente passa de mensagens superficiais e genericamente cínicas sobre o mundo atual. Diálogos do gênero “toda filha vira sua mãe ao crescer”, “romance pode ser mais importante que dinheiro agora, no futuro isso mudará”, “quando se ama alguém, deve preservar, talvez nunca aconteça de novo”, “nosso mundo é muito mais agradável que o mundo real”, servem apenas como ilustração da montanha de sabedoria de bolso vendida por Ford com toda seriedade possível. Fora isso, tem também os conceitos de classe, que não são mais do que uma simplória representação de estereótipos, com o contraste entre a alta sociedade fútil de Susan (Amy Adams) e a “ralé texana” de Ray (Aaron Taylor-Johnson, numa atuação terrível) que não serve pra muito mais do que posicionar a classe média, representada por Edward (Jake Gyllenhaal), como vítima inocente de ambos polos.
No  fim, Animais Noturnos é um filme muito espalhafatoso que fala muito sem dizer nada. No elenco, Michael Shannon é o MVP ao abraçar o lado pulp do material (antes o filme tivesse feito o mesmo) sem a contradição que o roteiro impôs à Amy Adams, que é ótima atriz e não tem culpa de nada, nem os excessos da direção de Ford sobre Gyllenhaal, que também é talentoso, mas aqui fica desperdiçado.

NOTA (1/5)

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