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Festim Diabólico (Alfred Hitchcock, 1948)

G.W. MACHADO Não deve ter precisado de muito para convencer Hitchcock a fazer Festim Diabólico . Essencialmente, é um filme sobre assassinato; mais do que isso, sobre a própria filosofia do assassinato. Como se não bastasse, ainda vinha acompanhado com o atrativo do desafio que era filmar num espaço bastante limitado, em tempo real (aspecto fundamental que já vinha com a peça) e manter a dinâmica necessária para um filme de suspense. Parece claro até hoje que era um projeto condenado: um "teatro filmado", pretensamente intelectualizado, marcado pelo ego de um diretor que na época estava mais preocupado em transformá-lo num projeto de vaidade. Tudo isso serve para nos mostrar o quão pouco valem nossos exercícios de antecipação, e que o cinema é realmente uma arte de combinações improváveis.

filmes favoritos

G.W. MACHADO Já faz um bom tempinho da minha última atualização de favoritos, e esse é um dos poucos vícios que eu prefiro não perder, mesmo que muitas vezes sirva muito mais pra mim (acompanhar minha própria progressão cinéfila) do que pra vocês. Sei lá, vá que seja de interesse de alguém ainda; pra mim cada nova seleção é a melhor que já fiz, mas isso é uma condição óbvia desse tipo de lista.

Top 10 - Werner Herzog

GUILHERME W. MACHADO Cineasta de grande visão e uma abordagem particular ao cinema, Herzog é um autor que avalio como tendo uma das (longas) carreiras mais coerentes dentre os ainda em atividade. Tão brilhante documentarista quanto cineasta de ficção, seus filmes são visualmente poderosos e tematicamente densos. Há dois temas principais que são explorados de forma recorrente na sua carreira: a relação do homem com a natureza – que ao tentar subjugá-la é por ela subjugado – e a própria insanidade humana e como essa se articula através do convívio (ou total ausência dele) social.

Retrospectiva: 1998

GUILHERME W. MACHADO Então, ano passado comecei esse projeto mais tarde e acabei (por falta de tempo mesmo) não conseguindo cobrir todos anos aniversariantes; em 2018 espero que seja diferente. Dou o pontapé inicial com o aniversariante de 20 anos, 1998. Ano no qual minha seleção conta com uma mistura um tanto bizarra de cineastas, mas forte a ponto de deixar de fora um punhado de filmes bem bacanas, como o divertido  Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes  (Guy Ritchie) ou o irregular mas grandioso  O Resgate do Soldado Ryan  (Steven Spielberg). Convenhamos, qualquer ano que reúna mestres como De Palma, Oliveira, Hou, Carpenter, Ferrara, Malick, Spielberg (mesmo que não tenha entrado na minha seleção, ainda é mestre), Ming-liang, tem que ser um ano forte.

Trama Fantasma (Paul Thomas Anderson, 2017)

GUILHERME W. MACHADO Por mais que ainda seja um filme sobre obsessões, Trama Fantasma quebra com o ciclo recente no cinema de PTA de filmes sobre a história americana, como eram os casos de Sangue Negro (2007), O Mestre (2012) e Vício Inerente (2014). E embora o próprio Anderson tenha traçado em entrevistas o paralelo de seu novo filme com Rebecca (1940), não consigo evitar enxergar um pouco mais de Vertigo (1958) nele: o homem que obsessivamente tenta reconfigurar a personalidade da mulher através do figurino.

Oscar 2018 - Previsão dos Vencedores

GUILHERME W. MACHADO Como é costume todo ano – mais pelo esporte que é a aposta em si do que pela consideração pelo prêmio, que nunca foi parâmetro pra nada – lanço aqui minhas apostas para os vencedores dessa edição do Oscar, que vai acontecer domingo que vem (dia 4). Tem anos que dá vontade de ser um pouco mais imprudente e escolher algumas categorias para fugir dos favoritos, e acho que essa edição é propícia pra isso. Talvez mais adiante na semana eu poste mais alguma coisa dando realmente minha opinião sobre os indicados (quem merece, não merece, quem deveria ser indicado, algum blábláblá assim), ou faça alguma lista, mas aqui fica apenas meu bolão:

Lady Bird (Greta Gerwig, 2017)

GUILHERME W. MACHADO Há uma escolha curiosa em Lady Bird que parece ser a de evitar a qualquer custo momentos de maior intensidade. Tudo bem que se há uma característica evidente desse cinema indie moderninho é a priorização da leveza, o trato suave e delicado mesmo quando se abordam assuntos pesados. O que intriga mesmo é entender o motivo que levou Greta Gerwig a criar esses momentos no roteiro apenas para negá-los depois na direção e montagem.

A Forma da Água (Guillermo Del Toro, 2017)

GUILHERME W. MACHADO Depois de uma sucessão de filmes que pareciam muito mais preocupados em explorar tonalidades visuais, é estranho que Del Toro entregue um filme tão menos intenso e inventivo naquilo que lhe é mais caro como cineasta: a forma. Ainda mais por esse A Forma da Água ter vindo logo depois daquele que provavelmente é seu filme mais bem resolvido no aspecto artesanal e estético de seu trabalho (ainda que altamente problemático em quase todos outros): A Colina Escarlate (2015).

The Post (Steven Spielberg, 2017)

GUILHERME W. MACHADO Dentre tantas, uma das habilidades de Spielberg como contador de histórias deve ser reconhecida, poucos cineastas assumem projetos em princípio tão desinteressantes e fazem deles bons filmes. Não com a frequência que ele tem feito, ainda mais recentemente. Sério, alguém queria mais um filme sobre a liberdade da imprensa? Ou sobre o embate dessa com o governo Nixon? Não, mas Spielberg fez, e fez bem. Que venham Indiana Jones 5 e o remake de West Side Story!

Melhores Filmes da Década de 60

GUILHERME W. MACHADO Continuação do projeto não-linear de cobrir décadas aqui no blog (links para as outras duas embaixo da postagem). Década absurda, talvez a minha favorita na história do cinema, a de 1960 era uma das que mais estive ansioso pra fazer. O problema que é comum em todas aqui é acentuado: alta densidade de obras-primas, fazendo com que seja complicado selecionar apenas 30 e quase impossível isolar apenas 10 (acabou que foram 11, tive que optar por um "empate" na décima posição). Por outro lado, o nível de excelência é notável, então espero que seja uma lista proveitosa.

Roda Gigante (Woody Allen, 2017)

GUILHERME W. MACHADO O cinema como palco sempre foi uma questão tentadora na carreira de Woody Allen. Daí partiu a confusão recorrente de que o cineasta fazia “teatros filmados” – uma baboseira que, não fosse tão absurda, nem valeria o comentário –, numa falha generalizada de perceber que seus filmes apenas partem de bases teatrais (os diálogos como alicerce que movimenta a narrativa) para chegar ao cinema (decupagem, close-ups, temporalidade fragmentada, etc), linguagem na qual Allen é traiçoeiramente bem versado.

Melhores de 2017 - Nos Cinemas

GUILHERME W. MACHADO Agora sim, minha lista dos melhores filmes lançados ineditamente nos cinemas brasileiros em 2017. Lembrando que, como sempre, por mais que seja tentador, não vale aqui a inclusão de obras lançadas diretamente para home video ou serviços de streaming (portanto, sem Twin Peaks ), apenas filmes que passaram nos cinemas, em circuito comercial (portanto sem filmes que passaram apenas em festivais), e pela PRIMEIRA VEZ em 2017 (portanto sem clássicos como Hiroshima Meu Amor ).

Melhores de 2017 - Fora dos Cinemas

GUILHERME W. MACHADO Essa é uma tradição comum do meio cinéfilo à qual eu nunca tinha indulgido, mas de tempos em tempos é bom tentar coisas novas, então aqui estou. Nada mais é do que a lista dos melhores filmes não lançados neste ano (minha lista dos melhores do ano deve sair nesse final de semana) que vi pela primeira vez em 2017. Não é tão fácil quanto imaginei, muito porque esses filmes ainda são recentes na memória e nem sempre houve tempo para digerir inteiramente seus impactos. De qualquer forma, fiz o esforço e os coloquei em algo próximo de ser uma ordem de preferência (embora isso realmente signifique pouco), mas posso assegurar que só selecionei obras que me marcaram, da última à primeira.

Alguns pensamentos sobre The Beguiled e A Quiet Passion

GUILHERME W. MACHADO Afirmo que foi por coincidência que acabei vendo em sequência esses dois filmes de época sobre protagonistas femininas, passados na época da Guerra Civil americana, e com propostas de revisionismo histórico. Um é O Estranho que Nós Amamos (2017), de Sofia Coppola, que faturou o prêmio de melhor direção em Cannes este ano, e o outro é Além das Palavras (2016), de Terence Davies, que ganhou nada mais que um parabéns de uma porção da crítica e uma ou outra menção à atriz Cynthia Nixon em premiações menores. Esse texto não é uma crítica propriamente dita de um filme nem de outro, apenas alguns pensamentos [meio largados] que me ocorreram sobre as proximidades e diferenças entre os projetos. Confesso que não tenho certeza até que ponto ter visto o filme de Davies antes pode ter prejudicado minha sessão de O Estranho que Nós Amamos , mas sinceramente não acho que eu teria tido uma reação diferente ao filme se não tivesse sido esse o caso. Embora haja muito o q...

Retrospectiva: 1977

GUILHERME W. MACHADO Percebi que 2017 já está quase acabando e tem vários grandes anos "aniversariantes" para os quais ainda não prestei homenagem. Entre eles, 1977. 77 foi ao mesmo tempo um ano de consolidação da maturidade de antigas lendas quanto do surgimento ainda cru de outras novas, o que se reflete de forma tão óbvia nessa seleção com jovens em ascensão como Lynch, Scorsese e Woody Allen intercalados com figurões consolidados como Buñuel, Resnais e Cassavetes. No meio destes há ainda grandes como Herzog (que certamente está na briga quando se fala no melhor cineasta daquela década) e Argento, ambos também em processo de amadurecimento.

O Som ao Redor (Kleber Mendonça Filho, 2012)

GUILHERME W. MACHADO Como o filme de grande cidade que é, O Som ao Redor  acaba por abordar uma multiplicidade de temas através de seu mosaico de personagens. Longe de difuso, entretanto, Kleber Mendonça filho consegue manter sua unidade temática da mesma forma que vem fazendo em sua jovem carreira: explorando à exaustão um punhado específico de assuntos que se repetem sistematicamente na estrutura de suas obras. Como muitos grandes cineastas – e digo isso sem emancipá-lo a essa posição tendo apenas dois longas metragens no currículo – Kleber é obcecado.

10 Giallos Preferidos (Especial Halloween)

GUILHERME W. MACHADO Então, pra manter a tradição do blog de lançar uma lista temática de terror a cada novo Halloween ( confira aqui a do ano passado ), fico em 2017 com o top de um dos meus subgêneros favoritos: o Giallo. Pra quem não tá familiarizado com o nome  –  e certamente muito do grande público consumidor de terror ainda é alheio à existência dessas pérolas  –  explico rapidamente no parágrafo abaixo, mas sem aprofundar muito, pois não é o propósito aqui fazer um artigo sobre o estilo. Seja para já apreciadores ou para os que nunca sequer ouviram falar, deixo o Giallo como minha recomendação para esse Halloween, frisando  –  para os que torcem o nariz  –  que essa escola de italianos serviu como referência e inspiração para muitos dos que viriam a ser os maiores diretores do terror americano, como John Carpenter, Wes Craven, Tobe Hooper, e até diretores fora do gênero, como Brian De Palma e Quentin Tarantino.

Retrospectiva: 1957

GUILHERME W. MACHADO Dando seguimento à minha proposta de resgatar alguns anos (começada aqui ), puxo agora 10 filmes de 1957, que considero um dos anos mais fortes da década de 50. A densidade de obras-primas é grande; pode ser um ano só, mas um que concentra: o meu Fellini preferido, possivelmente meu Kurosawa preferido, um dos melhores do Tourneur, DOIS Bergmans, um filmaço subestimado do Chaplin, um top 3 do Kubrick e uma das melhores dentre as tantas obras-primas que Nicholas Ray fez nessa década. Pra resumir numa frase: é um ano tão bom que tem dois filmes de um dos meus diretores preferidos (Billy Wilder) e nenhum deles entrou nesse top 10.

Mãe! (Darren Aronofsky, 2017)

GUILHERME W. MACHADO Então... Demorei, confesso, para escrever esse texto. Não porque precisava de tempo para pensar, afinal o filme é tão plano quanto as palavras de seu diretor, revelando prontamente suas intenções na tentativa de passa-las por algo mais complexo. Demorei precisamente porque a busca por importância na qual incorrem diretores como Aronofsky é, em geral, apelativa a um público sempre à procura de um gênio; pensei, portanto, se era uma polêmica que valia a pena ser comprada (até porque incitar essas discórdias insossas faz parte da estratégia de venda de Mãe! , e isso eu não queria alimentar de jeito nenhum).

Ranqueado, Terrence Malick

GUILHERME W. MACHADO Dentre os cineastas mais inventivos da atualidade, Malick é outro daqueles autores polarizados entre fãs e haters, com a maioria dos cinéfilos – eu seguramente, embora atualmente já tenha me definido bem mais quanto a ele  – transitando entre os dois grupos. Não sou, por exemplo, grande fã dos 3 últimos filmes dessa lista; tiro proveito deles, posso até dizer que gosto de Amor Pleno  (2012). Os outros dois não é que considero como fracassos, são filmes interessantes, mas em comparação ao êxtase que o restante de seus títulos me provoca, ficam devendo. E com Malick, embora em todos seus trabalhos haja base para uma avaliação bem criteriosa, a experiência pessoal e subjetiva do espectador com cada filme conta muito, por conta da intimidade com a qual trabalha seu material.