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Fragmentado (M. Night Shyamalan, 2016)

GUILHERME W. MACHADO Bizarro que a volta de Shyamalan ao sucesso ( Fragmentado custou apenas 9 milhões e já passou dos 250 nas bilheterias) seja com um filme que: 1) é mais uma extensão – provavelmente a mais radical – de seu tema preferido, o trauma; 2) subverte tanto daquilo que se espera na sua condução dentro do gênero de suspense. Sei que ainda vou me arrepender de escrever sobre esse antes de uma revisão, pois foi realmente uma experiência bem diferente do que eu esperava antes de ir para o cinema, mas no momento é inevitável.

Hiroshima meu Amor (Alain Resnais, 1959)

GUILHERME W. MACHADO Não deixa de ser incrível como Resnais conseguiu manter tamanha coerência temática em sua longa carreira sem, na maioria das vezes, ter escrito seus próprios roteiros. Já em Hiroshima meu Amor , seu primeiro e mais conhecido longa-metragem, é possível enxergar distintamente as marcas de seu cinema. Seja nos aspectos formais, como a edição que movimenta a narrativa não-linear e a movimentação de câmera  –  que remete muito mais a um estilo moderno de fluxo que à mise-en-scène predominante na virada dos anos 50 pros 60  –  seja nas suas principais obsessões temáticas: o tempo e a memória. É um engano, entretanto, crer que as fundações de seu cinema partem daqui, uma vez que todos esses elementos já haviam sido ensaiados  com maestria  nos seus curtas, dentre os quais destaca-se o brilhante Noite e Neblina (1955).

Top 20 - Martin Scorsese

GUILHERME W. MACHADO Sei bem que, de uma forma ou de outra, enfrento críticas com essa lista. Scorsese é um dos diretores mais populares, com muitos filmes queridos pelo público e uma série de favoritos "obrigatórios" que costuma engessar quaisquer tentativas de ranquear sua carreira. Não foi o que eu segui aqui  – para a óbvia insatisfação do leitor hipotético  –, mas também não é verdade que ignorei certos filmes apenas pela sua popularidade, até porque isso é ridículo.

Silêncio (Martin Scorsese, 2016)

GUILHERME W. MACHADO A última vez que me lembro de um homem desbravando a natureza de um país estrangeiro, pretensamente em busca de um ex-líder que, nas condições extremas da cultura em que se encontra, rebelou-se contra o sistema que o enviou aquele lugar, foi no Apocalypse Now  [1979] de Francis Ford Coppola. No caso digo pretensamente porque, tanto no filme de Coppola quanto no de Scorsese, as buscas em que engrenam seus protagonistas tem muito mais a ver com questões existenciais do que propriamente tarefais. Se o filme de 1979 era uma jornada rumo a escuridão do ser humano, a nova obra-prima de Scorsese é rumo à essência da fé, e todas lutas e contradições que a envolvem.

No Silêncio da Noite (Nicholas Ray, 1950)

GUILHERME W. MACHADO Difícil é encontrar cinema mais verdadeiro do que o de Nicholas Ray. Mesmo em seu momento mais visualmente maneirista (mais pela natureza do gênero do que por qualquer outro motivo), Johnny Guitar [1954] é uma obra que transborda emoção, raiva e paixão dos seus personagens, num turbilhão alucinante que mantém a intensidade do início ao fim. Um filme glorioso, nem preciso dizer. No Silêncio da Noite , frequentemente aclamado como sua obra prima, e não sem motivos, figura entre os exemplares cinematográficos mais amargos da solidão humana numa grande cidade.

Oscar 2017 - Previsão dos Vencedores

GUILHERME W. MACHADO

Moonlight (Barry Jenkins, 2016)

GUILHERME W. MACHADO Corpos sufocados pelo ambiente e personalidades compostas por ele. Moonlight , filme papa prêmios do ciclo da crítica, mas mero espectador na corrida do Oscar (embora deva sair com dois prêmios, não chega a brigar pelos principais: filme/diretor), é um filme que consegue estabelecer uma abordagem sutil, ainda que incorra seus excessos cênicos – fotográficos, principalmente – na tentativa de adotar um tom operístico, que mais interfere com o bom fluxo de imagens do que agrega a ele.

Vencedores do BAFTA 2017 e Expectativa pro Oscar

GUILHERME W. MACHADO O BAFTA ("Oscar Britânico") costuma ser um momento de "conclusão" nas apostas para o Oscar, pois é o último grande prêmio televisionado antes da cerimônia da academia. O fato das duas premiações, americana e britânica, contarem com um grande número de votantes em comum, faz com que o BAFTA se torne um dos mais confiáveis termômetros para o Oscar  –  seguramente muito mais que o Globo de Ouro, que antigamente cumpria essa função. Nessa temporada de 2017 ainda temos alguns sindicatos que podem fazer diferença a serem apresentados (principalmente o WGA), mas em geral, pode-se dizer que o BAFTA já concretizou a maioria dos favoritos, bem como eliminou algumas esperanças.

A Qualquer Custo (David Mackenzie, 2016)

GUILHERME W. MACHADO Menos é mais. Depois de uma temporada cujos grandes sucessos de público e premiação foram Mad Max: Estrada da Fúria e O Regresso , A Qualquer Custo vem a calhar como exemplo de um cinema que, mesmo transitando entre os gêneros de ação e western (embora não seja estritamente nem um nem outro), constrói seus atrativos justamente pela economia.  Não que exista um modelo melhor de fazer ação – gosto muito de grandes produções virtuosas –, mas às vezes algumas variações aparecem bem no momento certo, quando mais sentimos falta de algo, e o novo filme de David Mackenzie é um desses casos.

75 Filmes Favoritos (de todos os tempos)

GUILHERME W. MACHADO Bem diferente esse ano, adotei o formato de 75 favoritos, em contraponto aos 50 de sempre. O principal motivo foi a busca por renovação da lista, uma vez que há ali cerca de uns 30-35 filmes que acabam sendo fixos, obras que não consigo ignorar (embora frequentemente faça esforço para tal); sempre sobram, portanto, poucos espaços de rotação. Eu tentei antes adotar a regra de "1 filme por diretor", e funcionou no sentido de deixar a lista mais variada, mas é muito doloroso ter que escolher entre Psicose e Festim Diabólico , por exemplo, ou A Marca da Maldade e Cidadão Kane . Claro que corre o risco desse formato de 75 filmes também se desgastar com o tempo, mas confesso que essa primeira tentativa me agradou bastante, uma vez que consegui englobar muito daquilo que o cinema mais significa para mim.

La La Land (Damien Chazelle, 2016)

GUILHERME W. MACHADO Muito curioso que na premiação do Globo de Ouro, domingo passado, tenham falado e repetido tanto da coragem dos produtores de terem bancado um “musical contemporâneo”. Curioso porque de contemporâneo La La Land só tem o ano (o filme se passa nos tempos atuais), mas toda roupagem, toda abordagem, até mesmo a temática, TUDO remete ao passado, principalmente aos musicais de Gene Kelly dos anos 50 e aos de Demy nos anos 60. A verdade é que retrô está em moda, Stranger Things surfou nessa onda em 2016 e La La Land aproveita uma vibe semelhante. Mesmo que poucos dentro daquela lotada sessão de cinema conheçam, realmente, os filmes de Kelly e Demy – assim como muitos não pegaram metade das referências oitentistas da série da Netflix –, ninguém ousaria falar mal. É um tributo, oras, e isso não é difícil de identificar.

Vencedores do Globo de Ouro 2017

GUILHERME W. MACHADO O Globo de Ouro costuma marcar o momento em que a coisa começa a ficar séria na temporada de premiações. Foi uma cerimônia morna, em vários sentidos, com uma apresentação contida de Jimmy Falon e sem muitos alardes em geral. Mantendo ainda um pouco do espírito rebelde do ano passado (o Globo de Ouro tem se afastado cada vez mais daquela posição de "prévia do Oscar"), a HFPA já começou a cerimônia com um baque: Aaron Taylor-Johnson ( Animais Noturnos ) como melhor ator coadjuvante . Sim, essa escolha vergonhosa abriu o Globo de Ouro 2017, mas tiveram alguns poucos bons momentos no caminho.

Top do Ano - 2016

GUILHERME W. MACHADO Bom, virada de ano, momento das tradicionais listas dos melhores do circuito comercial. 2016, como muito tem-se dito, foi um ano maldito, e o cinema certamente não saiu ileso disso. Não custa ressaltar que essa lista não é dos filmes de 2016, mas dos filmes lançados em 2016 nos cinemas brasileiros , quem tiver dúvida pode consultar o seguinte calendário de estreias . Como sempre, algumas obras me escaparam, ainda pretendo vê-las nessas primeiras semanas de 2017, entre elas destaco os dois Bellocchios (que tranquilamente teriam potencial de entrar na lista), o sucesso coreano Invasão Zumbi e o filme-póstumo de Manoel de Oliveira ( Visita ou Memórias e Confissões ), que não consegui achar para ver de jeito nenhum. De resto, vi tudo que tinha interesse. Enfim, esta é a lista, com comentários no fim:

Animais Noturnos (Tom Ford, 2016)

GUILHERME W. MACHADO O novo filme de Tom Ford – confesso que ainda não vi o seu primeiro, Direito de Amar [2009] – de cara traz, já nos créditos mesmo, todos os cacoetes que se esperaria de um filme dirigido por um estilista ou artista plástico (no caso, ele é a primeira opção). Tudo nessa primeira cena (trilha sonora, fotografia, direção de arte, etc) clama por uma noção de autoria, por uma atmosfera onírica, na vã tentativa de pegar emprestado um pouco da magia de um David Lynch, mas mais pelo prazer que essa proporciona ao ego do autor do que por alguma razão de ser. Porque, realmente, Animais Noturnos não é muito mais do que exibição e mímica, com muito na superfície e nada no âmago.

Top 10 - Natal no Cinema

GUILHERME W. MACHADO Natal se aproxima e, como todo ano, surgem aquelas listas temáticas (não apenas de filmes) relacionadas ao "espírito natalino". Eu adoro o Natal, mas meu entusiasmo não se propaga a alguns filmes/músicas/etc chatíssimos(as) que às vezes o acompanham. Essa lista não é sobre filmes com espírito natalino  –  diria que apenas 1 filme dentre os 10 presentes seja, realmente, "natalino"  –  e sim sobre filmes com uma  ambientação natalina que ocupe uma porção generosa de sua duração. Enfim, são ótimos filmes, que, mesmo os mais pesados, eu recomendaria ver nessa semana.

Sully (Clint Eastwood, 2016)

GUILHERME W. MACHADO Mais 40 anos de experiência deram ao piloto Sully a bagagem necessária para operar o seu “milagre” – como foi proclamado – no rio Hudson no auge do inverno de 2009 em Nova York. Quase os mesmos 40 e poucos anos de experiência em direção que permitiram a Clint Eastwood confeccionar seu filme mais enxuto (não apenas por ser um dos menores de sua carreira) e preciso. Sully é mesmo, seja no seu enredo ou na execução, um filme de precisão glacial, com um mínimo de floreios. O problema é que toda essa concisão, que, garanto, foi meticulosamente articulada, faz com que o filme pareça simplório ao olhar de alguns.

Top 10 - Filmes Biográficos

GUILHERME W. MACHADO Não sou, realmente, um grande fã de biografias no cinema. Nem mesmo de filmes baseados em eventos reais ou filmes de reconstrução histórica, que seguem uma linha parecida. O problema reside muito na prática comum de tratar essas obras com muita exatidão, fazendo delas mais uma simples reconstrução de fatos e eventos do que um objeto de exploração para sentimentos ou personalidades que, apesar de serem individuais, refletem muito nas sociedades nas quais estão inseridas. Claro, toda regra tem sua exceção e - sendo justo - a biografia é um formato que oferece bastante, mas raramente é aproveitado. Tenho notado com particular intensidade que recentemente têm-se feito ótimas cinebiografias. O formato sempre teve lá sua popularidade, principalmente nos resultados do Oscar; é recentemente, entretanto, que ele tem explorado novos potenciais, muito, acredito, através do avanço do cinema digital (que, sem querer entrar nos méritos dessa longa discussão, tem sim coisas ...

Explicação do Filme Cidade dos Sonhos

GUILHERME W. MACHADO Acatando pedido comum dos leitores, passei por cima de alguns receios (muitos envolvendo minha relação pessoal com o filme) e acabei por expor a forma como eu vejo a trama de Cidade dos Sonhos ; fruto do suor e de consecutivas revisões do filme no início da minha adolescência. Não me considero um "visionário" nem nada, sei que – ao contrário de sete anos atrás, quando eu inutilmente varri a internet tentando buscar teorias para comparar com as minhas – hoje em dia essa interpretação já é bem difundida, muito por não ser, de fato, um filme de história muito complexa, mas sim de narrativa alternativa. Faço esse artigo, portanto, como uma “âncora”, para quem assiste o filme, o interpreta à sua maneira, e busca na internet opiniões para completar a sua visão. OBS1: Esse texto revela vários detalhes da trama [SPOILERS] , não leia sem ter visto o filme. OBS2: Para quem prefere a análise cinematográfica e artística da obra, veja meu outro texto Crítica...

20 Obras-Primas de Aniversário em 2016

GUILHERME W. MACHADO Num espírito de homenagem, selecionei 20 obras-primas que estão de aniversário no ano de 2016. Como "aniversário" considerei décadas redondas, portanto, quaisquer filmes lançados nos anos "6" eram elegíveis. Não imaginei, ao começar a lista, o quão difícil ia ser podá-la para apenas 20 filmes;   quase impossível, na verdade, já que tratam-se de 9 anos diferentes, de 9 décadas diferentes, cada um com uma abundância de grandes filmes. Evitei fugir do critério (embora tenha incorrido numa pequena trapaça), e adotei a solução paliativa de incluir as "menções honrosas", para que minha consciência não me perturbasse com as indesculpáveis ausências, que, mesmo assim, foram muitas. TODOS filmes, incluindo as menções honrosas, são recomendadíssimos, e representam a nata do cinema em diferentes momentos ao longo de 90 anos.

Creepy (Kiyoshi Kurosawa, 2016)

GUILHERME W. MACHADO O terror vem de dentro. Retomando a cartilha de um dos seus filmes mais aclamados, Cure [1997], o mestre japonês Kiyoshi Kurosawa volta ao tema dos serial killers em Creepy [2016], depois de uma década longe do cinema de horror. Sou fã declarado do diretor, embora infelizmente ainda não tenha conseguido ver alguns de seus filmes, e o que chama mesmo atenção em seus trabalhos, acima dos enredos, que não fogem tanto assim dos padrões do gênero, é a peculiaridade de sua mise-en-scène, a forma diferenciada de como ele conduz suas histórias visualmente.